OS SACRAMENTOS

Como se confessar depois de anos afastado

Redação Saintly 8 min de leitura
Ilustração da porta aberta de uma igreja em tons acolhedores
Em resumo

Depois de anos de ausência, a confissão segue a mesma sequência habitual. Entre, diga «faz X anos», confesse seus pecados com sinceridade e deixe o padre orientar o restante. Esse sacramento existe para acolher seu retorno.

Os católicos que passam muito tempo sem se confessar costumam enfrentar o mesmo bloqueio: quanto mais tempo passa, mais difícil parece voltar. O padre imaginado atrás da grade fica mais severo a cada ano. Os pecados esquecidos pesam cada vez mais. Tudo acaba parecendo impossível.

Voltar é possível e costuma ser mais simples do que você imagina. Este artigo apresenta exatamente a sequência, as palavras e o que o ensinamento da Igreja pede de quem retorna depois de uma longa ausência, para ajudar você a entrar sabendo o que esperar.

Por que a Igreja Católica ensina que a confissão é necessária?

O próprio Cristo instituiu o sacramento. O Evangelho de João conta que, na noite de Páscoa, ele aparece aos discípulos, sopra sobre eles e lhes dá o Espírito Santo e o poder de perdoar ou reter os pecados (Jo 20,22-23). Essa autoridade vem de Cristo e é confiada aos apóstolos; os bispos, seus sucessores, e os padres que colaboram com seu ministério a exercem na Igreja.

O Catecismo expressa assim o preceito: «todo o fiel que tenha atingido a idade da discrição, está obrigado a confessar fielmente os pecados graves, ao menos uma vez ao ano» (CIC 1457). Um católico consciente de ter cometido pecado mortal deve receber a absolvição antes de voltar a comungar, ressalvadas as condições excepcionais indicadas nesse mesmo parágrafo.

A confissão é o meio pelo qual Cristo, por meio do padre, realmente absolve o pecado. O efeito do sacramento, o perdão dos pecados e a restauração da graça, vem de Cristo agindo no sacramento. Não depende da eloquência do penitente nem da santidade pessoal do padre.

O que a Igreja pede de quem retorna depois de anos?

Quatro elementos, nesta ordem:

  1. Contrição. O Catecismo a descreve como «uma dor da alma e uma detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar no futuro» (CIC 1451). É preciso se arrepender sinceramente da própria conduta e se comprometer a fazer o possível para não repeti-la. Uma emoção intensa não é necessária.
  2. Confissão dos pecados. Diga com sinceridade ao padre o que fez, especialmente as faltas graves. Depois de uma longa ausência, você pode descrever os hábitos de que se lembra sem reconstruir cada detalhe de dez anos.
  3. Absolvição. O padre pronuncia a oração de absolvição pela qual Cristo perdoa seus pecados por meio desse ministério.
  4. Satisfação, ou penitência. O padre propõe uma ação, frequentemente uma oração ou uma tarefa concreta, para contribuir para reparar o mal causado pelo pecado.

A Igreja pede que você nomeie com honestidade aquilo de que se lembra, reconheça com sinceridade seus hábitos e queira recomeçar. Ela leva em conta os limites da memória.

Como encontrar um horário e um padre?

Os passos práticos são simples, mas muitas vezes são o primeiro obstáculo para quem volta.

Consulte o site da paróquia. A maioria das paróquias católicas informa os horários de confissão. É comum haver atendimento no sábado à tarde, às vezes por volta das 15h ou 16h, e em algumas manhãs de semana, antes ou depois da Missa.

As grandes igrejas do centro costumam oferecer confissões diárias. Em muitas cidades, uma basílica, catedral ou igreja de religiosos, franciscanos, dominicanos ou jesuítas, atende confissões durante a semana, às vezes por várias horas. Esses horários podem facilitar o retorno.

Você pode ir a outra paróquia. Uma confissão recebida em outro lugar cumpre a mesma obrigação. Alguns católicos preferem uma igreja onde não sejam conhecidos. É uma escolha legítima.

Depois de uma longa ausência, telefone antes. Você pode dizer à secretaria paroquial: «Faz muito tempo que não me confesso. Posso ir em um horário em que o padre tenha alguns minutos a mais?» A maioria dos padres reserva esse tempo com prazer. O retorno de uma pessoa é motivo de encorajamento.

O que acontece quando você entra? A sequência da confissão

A confissão tem uma estrutura definida. Conhecê-la antes pode aliviar boa parte da ansiedade.

  1. Você entra no confessionário. A maioria das igrejas oferece a possibilidade de ficar diante do padre ou atrás de uma grade. Você escolhe. A grade é uma opção habitual, muitas vezes prevista como padrão.
  2. Você começa. Pode dizer: «Abençoe-me, padre, porque pequei. Minha última confissão foi há [tempo].» Se não lembrar a fórmula, diga isso. O padre vai orientar você.
  3. Você confessa os pecados. Nomeie as faltas de que tem consciência com precisão suficiente para o padre compreender, sem multiplicar os detalhes do relato. Depois de uma longa ausência, exponha com sinceridade as faltas graves e sua frequência, tanto quanto lembrar.
  4. O padre fala. Ele pode fazer uma ou duas perguntas, dar um breve conselho espiritual e propor uma penitência, uma oração ou uma pequena ação concreta.
  5. Ato de contrição. Você faz uma breve oração que expressa arrependimento. Se não conhecer uma, o padre pode oferecer um texto para ler ou recitar.
  6. Absolvição. O padre pronuncia a fórmula de absolvição, que inclui estas palavras: «E eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.»
  7. Despedida. O padre convida você a ir em paz, por exemplo: «O Senhor perdoou os teus pecados. Vai em paz.» Você sai e cumpre a penitência.

Tudo costuma levar de três a dez minutos.

O que dizer se você não souber as palavras?

Diga isso ao padre. Ele ouve com frequência: «Faz muito tempo e não lembro mais como é». Os padres são preparados para acompanhar você, e muitos ficam felizes em ajudar alguém que retorna.

Aqui está um exemplo simples:

«Abençoe-me, padre, porque pequei. Minha última confissão foi há [X] anos. Não lembro todos os detalhes, mas estes são os pecados de que tenho consciência e quero confessar: [nomeie as faltas e a frequência, por exemplo “faltei regularmente à Missa”, “tenho lutado com [pecado específico]”, “afastei-me da Igreja destas maneiras…”]. Arrependo-me desses pecados e dos que possa ter esquecido. Ajude-me a recomeçar.»

Fale com simplicidade. O padre vai orientar o restante.

Quais pecados você é obrigado a confessar?

O Catecismo distingue pecados mortais e veniais. Você deve confessar todos os pecados mortais de que tem consciência desde a última confissão sacramental: violações graves dos mandamentos cometidas com pleno conhecimento e liberdade. Confessar os pecados veniais também é útil, embora não seja obrigatório.

Depois de uma longa ausência, estas orientações ajudam:

  • Nomeie com sinceridade os hábitos de pecado grave, por exemplo: «Faltei regularmente à Missa de domingo», «Vivi um relacionamento fora do casamento», «Roubei».
  • Informe o número quando souber. Se não lembrar, dê uma estimativa honesta da frequência, como «muitas vezes» ou «regularmente».
  • Não é necessário dizer o nome das outras pessoas envolvidas.
  • Examine a consciência com cuidado e diga os pecados de que realmente tem conhecimento. Você pode reconhecer os limites da memória.

Se fez algo sério e não sabe avaliar a gravidade, conte e deixe o padre ajudar. Isso faz parte do papel dele.

O que acontece depois e como continuar?

Duas coisas são verdadeiras a partir desse momento.

Primeiro: seus pecados são realmente perdoados. O Catecismo ensina: «Aqueles que se aproximam do sacramento da Penitência obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa a Ele feita» (CIC 1422). Você recebe esse perdão no sacramento e pode recomeçar na graça.

Segundo: geralmente você pode comungar na próxima Missa. A absolvição dos pecados mortais restaura o estado de graça necessário para receber a Comunhão.

O período seguinte pode exigir mais atenção. Depois de anos de ausência, o retorno pode trazer uma sensação de fragilidade. Dar à confissão um ritmo regular ajuda a seguir em frente. O Catecismo afirma: «Sem ser estritamente necessária, a confissão das faltas quotidianas (pecados veniais) é contudo vivamente recomendada pela Igreja» (CIC 1458). Uma vez por mês é um ritmo comum. Um encontro trimestral também pode ser um ponto de partida regular.

Para sustentar o retorno, retome a Missa de domingo, veja Faltar à Missa de domingo é pecado mortal?, e considere um breve exame todas as noites. Alguns minutos para rever o dia ajudam a manter a consciência clara e a preparar a próxima confissão.

Perguntas frequentes

O padre pode contar a alguém o que eu disser? +

Não. O sigilo da confissão é absoluto. Um padre não pode revelar a ninguém, em nenhuma circunstância, nem para salvar a própria vida, o que lhe é confiado na confissão. O direito canônico prevê excomunhão automática reservada à Santa Sé para a violação direta do sigilo. O que você confessa permanece sob o segredo sacramental.

Posso ficar anônimo, atrás de uma grade? +

Sim. Você pode pedir para se confessar atrás de uma grade, sem ser visto ou identificado. Essa possibilidade deve estar prevista no confessionário. Muitas pessoas a preferem depois de uma longa ausência, e essa escolha é legítima.

E se eu não tiver certeza de estar arrependido o suficiente? +

A contrição imperfeita é suficiente para receber o sacramento. O Catecismo distingue a contrição perfeita, a dor por ter ofendido a Deus amado acima de tudo, e a imperfeita, que nasce das consequências do pecado ou de sua fealdade. Ambas permitem receber o perdão no sacramento. É preciso se arrepender sinceramente e querer não repetir o pecado, mesmo sem uma emoção perfeita.

E se eu começar a chorar? +

Isso acontece com frequência e os padres estão acostumados. Você pode parar para respirar e depois continuar. O padre vai esperar se você precisar de uma pausa.

Preciso ir à minha própria paróquia? +

Não. Qualquer padre católico com a faculdade de ouvir confissões pode dar a absolvição validamente; no rito latino ordinário, quase todos a possuem. Você pode ir a outra paróquia, a uma catedral, a uma igreja de religiosos ou se confessar durante uma viagem. O sacramento tem o mesmo valor em qualquer lugar.