O que é uma indulgência?
A indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal que permanece depois que a culpa de um pecado foi perdoada, concedida pela Igreja a partir dos méritos de Cristo e dos santos. A indulgência plenária remove toda essa pena e exige a obra prescrita, a confissão, a Comunhão, a oração nas intenções do Papa e o desapego de todo pecado; a indulgência parcial remove uma parte dela. As indulgências podem ser oferecidas pelos mortos, nunca estão à venda e nunca foram medidas em dias a menos de purgatório.
A indulgência é a remissão da pena temporal que permanece depois que um pecado foi perdoado. Ela não perdoa pecados, não pode ser comprada e nunca foi um número de dias descontados do purgatório. Poucas práticas católicas são tão mal compreendidas, em parte porque poucas sofreram abusos tão graves quinhentos anos atrás.
O que é uma indulgência?
A indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal ainda devida por pecados que já foram perdoados. A Igreja a concede, a partir dos méritos de Cristo e dos santos, ao católico devidamente disposto que realiza uma oração ou uma boa obra prescrita.
A definição do Catecismo vem do Papa Paulo VI: “A indulgência é a remissão, perante Deus, da pena temporal devida aos pecados cuja culpa já foi apagada; remissão que o fiel devidamente disposto obtém em certas e determinadas condições, pela acção da Igreja” (CIC 1471).
O Catecismo trata das indulgências no fim da sua seção sobre a confissão e afirma que a doutrina e a prática das indulgências “estão estreitamente ligadas aos efeitos do sacramento da Penitência” (CIC 1471). A indulgência começa onde a confissão termina: o pecado já foi perdoado, e a indulgência cuida do que ficou.
Qual é a diferença entre a pena temporal e a culpa?
A culpa é a ruptura com Deus causada pelo pecado, e a confissão a perdoa. A pena temporal é o que fica depois: os apegos e hábitos desordenados que o pecado deixa na pessoa. O perdão restabelece a relação na hora. A cura da pessoa pode levar mais tempo.
O Catecismo explica que “o pecado tem uma dupla consequência”. O pecado grave separa a pessoa de Deus, e essa é a sua pena eterna; veja o nosso texto sobre o pecado mortal. Mas “todo o pecado, mesmo venial, traz consigo um apego desordenado às criaturas, o qual precisa de ser purificado, quer nesta vida quer depois da morte, no estado que se chama Purgatório” (CIC 1472).
Essas penas “não devem ser consideradas como uma espécie de vingança, infligida por Deus, do exterior, mas como algo decorrente da própria natureza do pecado” (mesmo número). Quem mentiu durante anos pode ser plenamente perdoado e, ainda assim, achar difícil ser honesto. O perdão é real, e o trabalho que resta também.
Quando Davi confessou o seu pecado, Natã lhe disse: “O Senhor perdoa o teu pecado; não morrerás” (2Sm 12,13). Mesmo assim, as consequências continuaram a se desenrolar na casa de Davi. O perdão traz “a abolição das penas eternas do pecado. Mas subsistem as penas temporais” (CIC 1473).
De onde a Igreja tira o poder de conceder indulgências?
De duas fontes: o poder de ligar e desligar que Cristo deu a Pedro e aos apóstolos, e a comunhão dos santos. Como todos os cristãos formam um só corpo, os méritos de Cristo e a santidade dos santos podem beneficiar os outros. A Igreja chama essa riqueza partilhada de seu tesouro.
Jesus diz a Pedro: “tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19). A Igreja concede indulgências “em virtude do poder de ligar e desligar que lhe foi concedido por Jesus Cristo” (CIC 1478).
Na comunhão dos santos, “a santidade de um aproveita aos demais, muito para além do dano que o pecado de um tenha podido causar aos outros” (CIC 1475). O tesouro da Igreja “não é um somatório de bens, como quando se trata das riquezas materiais acumuladas no decurso dos séculos”, mas sim “o preço infinito e inesgotável que têm junto de Deus as expiações e méritos de Cristo, nosso Senhor” (CIC 1476).
Na indulgência, escreveu Paulo VI, a Igreja “não se contenta com rezar, mas por sua autoridade abre ao fiel convenientemente disposto o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos” (Indulgentiarum Doctrina 8). Ela quer também “incitá-lo a obras de piedade, penitência e caridade” (CIC 1478).
Qual é a diferença entre uma indulgência plenária e uma parcial?
A indulgência plenária remove toda a pena temporal devida pelo pecado naquele momento. A parcial remove uma parte dela. A indulgência plenária só pode ser ganha uma vez por dia, enquanto a parcial pode ser ganha quantas vezes a obra prescrita for realizada.
“A indulgência é parcial ou plenária, consoante liberta parcialmente ou na totalidade da pena temporal devida ao pecado” (CIC 1471). A regra de uma vez por dia tem uma exceção: quem está à beira da morte pode ganhar uma indulgência plenária mesmo que já tenha ganhado outra naquele dia (Indulgentiarum Doctrina, normas 6 e 18).
A indulgência parcial não tem um tamanho fixo. A quem realiza a obra “ao menos contrito de coração”, além do que o próprio ato já merece, “é concedida pela Igreja uma remissão de pena temporal igual à que ele mesmo obtém por sua ação” (norma 5). Quanto mais amor houver no ato, mais ele vale.
O manual da Igreja, o Enchiridion Indulgentiarum, lista as obras indulgenciadas. Entre as que trazem indulgência plenária em qualquer dia estão a adoração ao Santíssimo Sacramento por pelo menos meia hora, a Via-Sacra, o terço rezado numa igreja, em família ou em grupo, e a leitura da Escritura por pelo menos meia hora (Enchiridion, concessões 7, 13, 17 e 30).
As indulgências parciais abrangem a vida cristã comum: elevar a mente a Deus com uma oração breve durante o trabalho ou numa dificuldade, servir quem passa necessidade, renunciar a algo lícito como penitência e dar testemunho público da fé. Outra concessão abrange o exame de consciência acompanhado de um ato de contrição (Enchiridion, concessões gerais I a IV e concessão 9).
Como se ganha uma indulgência plenária?
Realize a obra indulgenciada e cumpra três condições: confissão sacramental, Sagrada Comunhão e oração nas intenções do Papa. É preciso também estar livre de todo apego ao pecado, mesmo venial. Se faltar alguma dessas coisas, a indulgência não se perde. Ela se torna parcial.
As três condições são “confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Sumo Pontífice. Requer-se além disso rejeitar todo o apego ao pecado, qualquer que seja, mesmo venial.” Se “falta essa plena disposição”, a indulgência “será apenas parcial” (Indulgentiarum Doctrina, norma 7).
As condições não precisam cair no mesmo dia. A Penitenciaria Apostólica, o órgão do Vaticano responsável pelas indulgências, diz que basta cumpri-las “dentro de alguns dias (cerca de 20), antes ou depois do acto indulgenciado”. Uma confissão vale para várias indulgências plenárias, mas cada uma exige a sua própria Comunhão e a sua própria oração pelo Papa (O Dom da Indulgência, 5).
Essa oração “pode ser plenamente cumprida recitando em suas intenções um Pai-nosso e Ave-Maria” (norma 10). O direito canônico acrescenta que, para alguém ser capaz de lucrar indulgências, “deve ser baptizado, não estar excomungado e encontrar-se em estado de graça, ao menos no final das obras prescritas”, com pelo menos a intenção geral de ganhar a indulgência (cân. 996).
O desapego de todo pecado é a parte difícil. Não significa estar sem pecado. Significa não querer conservar nenhum pecado, nem mesmo um pequeno.
Como ganhar uma indulgência pelos mortos?
Qualquer indulgência pode ser oferecida pelas almas do purgatório, mas nunca por outra pessoa viva. No começo de novembro, a Igreja concede indulgências plenárias especiais pelos mortos: em cada dia de 1º a 8 de novembro, por visitar um cemitério e rezar por eles, e no Dia de Finados, por visitar uma igreja.
Todo católico “pode lucrar para si mesmo as indulgências, quer parciais quer plenárias, ou aplicá-las aos defuntos, por modo de sufrágio” (cân. 994). “Por modo de sufrágio” quer dizer como oração: a Igreja não tem jurisdição sobre os mortos, por isso pede a Deus que aceite a obra em favor deles (Catholic Encyclopedia, “Indulgences”).
A Penitenciaria descreve “a Indulgência Plenária para aqueles que visitam um cemitério e rezam pelos defuntos, ainda que apenas mentalmente, de norma estabelecida apenas de 1º a 8 de novembro” (decreto de 22 de outubro de 2020). Naquele ano, por causa da pandemia, ela foi estendida a todo o mês de novembro.
Em 2 de novembro, concede-se uma indulgência plenária pelos mortos a quem visita uma igreja ou um oratório e reza ali o Pai-Nosso e o Creio. Com o consentimento do bispo, ela pode passar para o domingo anterior ou o seguinte, ou para o Dia de Todos os Santos. Nos outros dias, a visita ao cemitério ou a oração “Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno” trazem indulgência parcial (Enchiridion, concessão 29).
As condições habituais se aplicam, de modo que quem visita um cemitério em cada um dos oito dias, com uma Comunhão para cada visita, pode oferecer oito indulgências plenárias. Esse é o coração de Todos os Santos e Finados: “nós podemos ajudá-los, entre outros modos, obtendo para eles indulgências” (CIC 1479). Os nossos textos sobre o purgatório e sobre como rezar pelos mortos vão mais longe.
A Igreja vendia indulgências?
A Igreja nunca ensinou que o perdão pudesse ser comprado, mas no fim da Idade Média as indulgências muitas vezes estavam ligadas a doações, e pregadores e funcionários transformaram essa ligação num comércio. O escândalo ajudou a desencadear a Reforma. O Concílio de Trento aboliu em 1563 o tráfico de dinheiro ligado a elas e manteve a doutrina.
A esmola era uma condição legítima para algumas indulgências. A Catholic Encyclopedia observa que a doutrina “não tem nenhuma ligação natural ou necessária com o lucro pecuniário”, mas que a prática “logo se tornou uma fonte fértil de males” (Catholic Encyclopedia, “Indulgences”).
Na Alemanha, Leão X renovou uma indulgência “para arrecadar fundos para a construção da igreja de São Pedro em Roma”, e parte da receita foi destinada a cobrir as dívidas do arcebispo Alberto de Brandemburgo, “uma transação financeira indigna tanto do papa quanto do arcebispo”. Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero publicou as suas Noventa e Cinco Teses em resposta (Catholic Encyclopedia, “Martin Luther”).
Na sua última sessão, em dezembro de 1563, o Concílio de Trento ensinou que “o uso das indulgências, particularmente salutar ao povo cristão e aprovado pela autoridade dos santos concílios, seja conservado na Igreja”, e decretou “que todo lucro criminoso ligado a elas seja inteiramente abolido”. Em 1567, Pio V cancelou todas as concessões de indulgências que envolviam taxas (Catholic Encyclopedia, “Indulgences”).
Paulo VI nomeou essa história com clareza em 1967: houve abusos no uso das indulgências “por concessões injustificadas e supérfluas” e em consequência de “proveitos ilícitos” (Indulgentiarum Doctrina 8). A sua reforma reduziu o número de indulgências plenárias e aboliu a antiga contagem em dias e anos (Indulgentiarum Doctrina 12).
O que as pessoas entendem errado sobre as indulgências?
Três erros são os mais comuns: achar que a indulgência perdoa o pecado, que pode ser comprada e que tira um número fixo de dias do purgatório. Nada disso é doutrina católica. A indulgência supõe que o pecado já foi perdoado, é um dom gratuito e nunca foi medida em dias de purgatório.
Ela não perdoa o pecado nem o permite. A indulgência só diz respeito à pena devida pelos pecados “cuja culpa já foi apagada” (CIC 1471). Paulo VI escreve: “Pois não podem estas ser adquiridas sem uma sincera metanóia e sem união com Deus” (Indulgentiarum Doctrina 11).
Ela não está à venda. Paulo VI chama as indulgências de “benefícios gratuitos” (Indulgentiarum Doctrina 10).
Ela não é “tempo descontado”. Livros de oração antigos traziam expressões como “300 dias de indulgência”. Isso queria dizer o equivalente a 300 dias das penitências públicas da Igreja primitiva, e não 300 dias a menos no purgatório, e “o cálculo não pretende ter exatidão absoluta” (Catholic Encyclopedia, “Indulgences”). Desde 1967, a indulgência parcial é indicada “sem determinação alguma de dias e anos” (norma 4).
Ela não substitui os sacramentos. A Igreja “não quer tirar nada às outras formas de santificação, em primeiro lugar ao santíssimo sacrifício da missa e aos sacramentos” (Indulgentiarum Doctrina 11).
O objetivo de tudo isso é o amor. “Uma conversão procedente duma caridade fervorosa pode chegar à total purificação do pecador, de modo que nenhuma pena subsista” (CIC 1472). As indulgências são uma ajuda nesse caminho.
Perguntas frequentes
Posso ganhar uma indulgência por um amigo que ainda está vivo? +
Não. As indulgências podem ser ganhas para si mesmo ou oferecidas pelos mortos, mas a Igreja diz que elas não se aplicam “a outras pessoas vivas sobre a terra” (O Dom da Indulgência, 7). Por um amigo vivo, reze diretamente por ele, mande celebrar uma Missa ou faça uma obra de caridade em favor dele.
Como sei se ganhei uma indulgência plenária? +
Não dá para saber com certeza, porque ninguém consegue medir o próprio desapego do pecado. A Igreja não pede certeza. Se a sua disposição não for completa, a indulgência é parcial, e não perdida (Indulgentiarum Doctrina, norma 7). Faça a obra com sinceridade e deixe o resultado nas mãos de Deus.
Preciso de uma confissão separada para cada indulgência plenária? +
Não. Uma só confissão sacramental basta para várias indulgências plenárias, dentro de cerca de vinte dias antes ou depois da obra indulgenciada. Já a Comunhão e a oração nas intenções do Papa são necessárias uma vez para cada indulgência plenária (O Dom da Indulgência, 5).
Posso ganhar a indulgência de novembro se não consigo ir a um cemitério? +
Normalmente, a visita ao cemitério é a própria obra. Se uma doença ou outro impedimento real o impede, o confessor pode comutar a obra prescrita ou as condições (Indulgentiarum Doctrina, norma 11). Fale com um padre. Rezar pelos mortos em casa sempre os ajuda, com indulgência ou sem ela.
As indulgências ainda fazem parte da doutrina católica? +
Sim. O Concílio de Trento ensinou que o uso das indulgências “seja conservado na Igreja”, o Catecismo trata delas nos números 1471 a 1479, e a reforma de Paulo VI, em 1967, manteve a doutrina e simplificou a prática. Os papas continuam concedendo indulgências especiais em anos jubilares e em outras ocasiões.